Rascunho da carta final.
Hoje eu sonhei com você. Hoje foi a primeira vez que pensei em você inconscientemente, desde que você se foi. Acho que doeu. Acho, pois não me lembro do sonho em totalidade, mas os flashes que me aparecem me apertam o peito instantaneamente, e perco o ar. Flashes de um sorriso que há muito não vejo — achei que já havia esquecido. Mas, assim como prometemos um dia, guardei no fundo (bem no fundo!) da memória, em um lugar onde só tenho acesso quando não controlo minhas lembranças.
O pouco que me lembro são cenas rápidas, momentos que passam como um cometa, uma luz tão forte que deixa rastro em minhas pálpebras quando fecho os olhos: você, sentado, em uma biblioteca antiga, abrindo o “meu sorriso” para mim. Você, me encontrando em meio a multidão — um reencontro quase sem querer — e eu, abrindo o “seu sorriso” para você.
E agora, agora que minha cicatriz é quase um risco rosa claro, agora que eu quase já esqueci você, você volta para minha vida mais uma vez — mesmo sem querer, e me vira do avesso. Eu, quase cicatrizada, quase viro um nada quando a ausência me preenche por completo.
Você, um pontinho de quase, escondido em algum lugar que eu nem lembro, volta e me lembra que eu sou só sua, mais uma vez.
Sem pedir, você volta. Eu lhe imploro: volta?
Sua Allie.
“E entre tudo aquilo que ele poderia ser para mim, ele escolheu ser saudade.” (Caio Fernando Abreu)
4:50
❝Eternidade para esquecer,
segundo para lembrar,
saudade que faz doer,
E nós.
(que acreditávamos que tudo terminaria em uma rima perfeita.)
10:14
Tá faltando um pedacinho.
Colei todos os cacos, até mesmo os que pareciam impossíveis de serem colados. Ficou deformado, é verdade, mas acho que isso se deve ao fato de que ao longo do tempo, você vai se dando um pouquinho e ganhando um pouquinho dos outros, então a colagem fica desigual.
É uma troca: o tempo vai passando e você vai se doando, dividindo e compartilhando com os outros tudo o que você foi, é, e às vezes, o que você gostaria de ser. Assim, você tira um pedaço de você e dá de presente para alguém. Em troca, o mesmo acontece com as outras pessoas, e você também vai ganhando presentes. Você os encaixa aonde dá, aonde tem espaço; você preenche o que você deu com o que você ganhou. E de pedacinho em pedacinho, de tão irregular, o mosaico fica bonito: experiências divididas, momentos compartilhados e vidas entrelaçadas. Peças dissonantes que, unidas, formam os mais belos corações.
Com o tempo você aprende que quanto mais bocadinhos você doa, mais você vai receber. Assim como você também aprende que nem sempre você os receberá de volta: e aí tudo se complica. Incompleto, o coração se completa com pedaços de tempo, de lágrimas, de vontades e de desejos. Mas, principalmente, ele se completa com sonhos. Não é real. Não é como completá-lo com um pedacinho. E, mesmo cheio de tempo, de lágrimas, de vontades, de desejos e de sonhos, fica vazio. E mesmo quase completamente completo, parece que não tem nada! Porque a falta de um pedacinho quase anula todos os outros.
Falta um pedaço. Tá faltando um pedacinho. Tá faltando o seu pedacinho. E esse meu buraco me incomoda todos os dias; porque nem o tempo, nem lágrimas, nem vontades, nem desejos, nem sonhos, são suficientes para enganar e preencher o espaço que você deixou. E eu o encho de memórias. Mas memórias, assim como todo o resto, não são reais.
Tá faltando um pedaço. Tá faltando você.
Nathalia M.
1:12
Em memória.
E pouco a pouco, fui percebendo que tudo o que você era virou um nada. Um nada que incomodava aqui e ali, em intervalos indefinidos. Todo o meu grande amor agora se resume à isso: um pontinho de nada, incomodando aqui e ali, vez ou outra.
Me pego pensando em você e, felizmente, não é mais sobre o quanto eu te quero ou o quanto eu sinto sua falta: quando penso em você, me pergunto (e desejo, com todas as forças do mundo!) se um dia eu vou encontrar alguém que faça com que eu me sinta como você fez. Porque usar uma camisa extra G velha, e me sentar com o cabelo bagunçado, assistindo ao futebol, não tem mais graça sem você pra dizer que o jogo está uma merda (como todos os outros do meu time), mas que ainda assim, continuo linda com esse meu jeito “de verdade” de ser. E preparar um café amargo demais ou doce demais, não é mais uma gracinha porque não tenho você me dizendo: “tudo bem, você não seria você se soubesse fazer um simples café”, e abrindo o meu sorriso preferido. Mais do que tudo, acordar de manhã com marcas do travesseiro no rosto não é mais um milagre da natureza, como você dizia. “Como pode que até assim, com a cara toda amassada, você ainda consiga ser a coisinha mais linda desse mundo?”. Acordar com marcas de travesseiro na cara é, agora, uma tragédia, porque eu me olho no espelho e me desespero: Como é que eu vou conseguir alguém que goste quando eu acordo assim? E principalmente, quando é que eu vou encontrar esse alguém.
Meu único consolo é que há algum tempo eu aprendi: o tempo não cura tudo. Ele apenas faz com que o insuportável se torne um pontinho. Um pontinho incomodando aqui e ali.
Nathalia M.
12:26
Linhas, ansiedade, e um relógio que não funciona.
Tenho esperado pelo que me parece um longo tempo, desde a primeira vez que me apaixonei. Espero por amores que venham completos, não só lágrimas e decepções, para variar… Espero por sorrisos em maioria, em demasia! Espero por pequenos milagres no meu cotidiano que parece imutável.
Funciona assim: eu me apaixono. Então, cruzo os dedos e peço com todas as forças para que tudo dê certo com esse meu novo amor. Não dá. Eu choro, e choro, e choro… E depois que decido que chorar não adianta, peço para que eu esqueça o meu “ex-futuro-amor” e conheça alguém que possa mudar tudo. Finalmente, depois de uma espera metaforicamente interminável, conheço um um amor-em-potencial! Ah, como esse parece ser diferente… Realmente! “Olha como ele fala umas coisinhas bonitinhas, não é mesmo? Talvez ele tenha gostado de mim de verdade. Mas vou me manter a distância, só para garantir…”. Mentira! Eu? Manter a distância? Nunca! Não por falta de desejo, que fique claro! Se só vontade bastasse…
Minha mente me prega peças; piadas de muitíssimo mau gosto! Enquanto eu estou certa de que não estou acreditando nas palavras dele, e que estou me mantendo a uma boa distância emocional: tudo vira pelo avesso! E de repente, me vejo esperando por suas palavras que tanto tentei ignorar… E ele me vem a cabeça mais do que deveria! E a saudade aperta; e o desejo dele; e a ansiedade pela próxima mensagem, pelo próximo telefonema… E não vem. Porque no meu mundo, no mundo onde nada dá certo para mim, tudo fica pelo avesso: E ele, que estava tão interessado, já não está mais. E eu, que estava tão distante, já não estou mais.
Sabe, não acredito em Deus. Pelo menos, não n‘“O Deus”. Acredito que exista algo maior, algo acima de nós. Sim, eu acredito em uma força. Definitivamente, acredito em algo. E ultimamente tenho começado a acreditar que isso, o que quer que seja, se diverte com minhas marionetes. Deve ser engraçado, me ver levando tombo após tombo, sem quase não ter tempo para me levantar. Minhas amigas dizem que eu apenas não encontrei o cara certo ainda. Mas será que eu realmente preciso de tantos caras errados assim?! Será que eu já não provei que posso esperar o certo sem precisar de tantos tropeços, topadas e quedas?
A verdade é que estou cansada. Estou cansada de achar que estou sendo fria e mantendo a distância quando, involuntariamente, estou ficando dependente. Estou farta da angústia e da ansiedade que vem com um possível novo amor. Sinto como se meu coração voltasse a vida apenas para ser destruído de novo! Olha… Se o tempo cura tudo, acho que serei imortal. Porque, meu amigo, haja tempo para me curar.
Nathalia M.
9:37
Para a mais bela estrela-figurante
Talvez uma das coisas que eu mais goste no mundo sejam as estrelas. Posso observá-las por horas sem me cansar. Observo seus movimentos, tento descobrir constelações.
Os amantes de cidade grande que me perdoem, mas o céu mais apaixonante é o do interior. Longe de toda a poluição, longe da iluminação excessiva, as pequeninas perdem a timidez e salpicam o céu com incontáveis pontinhos prateados. O que para os “cegos” é um grande manto escuro com alguns brilhos aqui e ali, para mim e alguns outros observadores perdidos por aí, se torna uma enorme tela para o tímido brilho das milhões que vem nos iluminar.
É engraçado como quando se trata de estrelas, é tudo uma questão de foco. As mais acanhadas — que exigem concentração para serem admiradas — são melhores vistas quando estão sendo apenas figurante de uma parceira qualquer. Quando são protagonistas… Não ficam tão brilhantes.
Eu conheço uma estrela-figurante. Ah, essa sim merece ser observada por qualquer criatura viva! Ela é daquelas que têm o brilho mais intenso (e mais bonito!) quando estão ao lado de quem quer que seja o(a) protagonista; quando, nos bastidores, sabe chamar mais atenção por ser tão bondosa que sua beleza interna grita externamente, roubando qualquer olhar para si.
Ah, minha estrela-figurante… Quantas vezes estive em foco na cena, seca e sem brilho, e tua luz prateada esteve ao meu lado, fazendo com que todos os olhares voltassem para ti, me devolvendo o brilho? Minha estrelinha… Ou devo dizer meu anjo caído? Meu anjo-acidentado. Minha estrela-figurante! Roubaria todas as estrelas do céu se pudesse dá-las à ti, estrela minha. Todo o brilho eu tomaria para dar-lhe, se um dia vier a se apagar. Se eu pudesse, meu anjinho, teu brilho seria eterno!
Uma coisa eu lhe prometo: serei tua estrela-figurante se me pedires. Ou se não! E darei todo meu brilho para ti, porque parte dele veio do teu.
Nathalia M.
10:43
Sobre sóis e luas.
Ultimamente tenho me perdido noite adentro.
As manhãs correm normalmente, mas ao cair da noite sinto meu coração se dividir tão imensamente, que poderia dizer que cada estrela do céu guarda em si um pedacinho do meu antes coração. Converso com um companheiro imaginário, desabafo em milhões de palavras sufocadas e desafogo gritos que escondo quando não me permito sentir. Uns chamariam meu ouvinte de Deus. Outros, diriam que sou apenas louca por falar sozinha. Há ainda aqueles que me entendem perfeitamente, e que até se sentem a vontade para falar “sei como é, faço isso também”.
A verdade é que é muito melhor conversar com alguém que não tenta justificar tuas lágrimas, que não procura motivos para teu sofrer, nem supõe os motivos do teu sorriso. Essas coisas não se explicam! Apenas estão lá, e afloram quando algo é suficientemente importante; quando é tão forte a ponto de nos inundar com ferroadas intensas — de dor, felicidade, ou até mesmo de torpor.
Ainda para aqueles que são compreensivos com a minha “loucura”, ouso dizer que nem mesmo eles podem me explicar o porquê de preferirmos a escuridão para ter nossos diálogos solitários. Ah, sim… Pois ainda ousando, afirmo que a maioria dos loucos — se não todos eles! — preferem ter a lua iluminando o silêncio que escuta nossos sussurros perdidos. O quê, devo dizer, é uma grande ironia! Afinal, a lua apenas reflete o brilho do astro maior, o sol. O meu brilho favorito nem ao menos é autêntico! Para aqueles que não sabem, a lua não tem luz própria.
Agora, me refiro só à mim: acho que prefiro o brilho refletido pois me sinto como a lua. Sou como um espelho, vivo de reflexos. Reflito os sentimentos e sensações d’aqueles a minha volta. Sobreviver em meio a uma multidão seria impossível se todos eles fossem só solidão. Imediatamente paro e penso: mas e se todos forem como eu? E se, no meio das milhões de pessoas que me cercam todos os dias, todos eles se sentirem só ao anoitecer? E se todos compartilham da mesma loucura que a minha? E se mascaram um sorriso enquanto ainda há luz própria e se afogam em lágrimas quando o que existe é apenas o reflexo?
Tais perguntas continuarão sem resposta. Porém, em meio a tantas luas perdidas por aí, acredito firmemente que existem sóis, anjos caídos feitos apenas com um propósito: doar um pouquinho do seu brilho, para aqueles que precisam refleti-lo.
Nathalia M.
5:23
O mundo não para que as pessoas ajeitem suas vidas e retornem, como se nada houvesse mudado. Algumas coisas se perdem no tempo, mas em sua essência, tudo permanece exatamente o mesmo. Anos se passaram e anos virão, e tenho certeza de que independente do que aconteça ou de quão grande seja o abismo que um dia virá a se abrir entre nós, seremos corajosas o suficiente para pulá-lo e nos encontrarmos do outro lado. E seguiremos, de mão dadas, como sempre foi. E sempre será, diga-se de passagem. Sempre será. Feliz 12-12.
4:02