O sentimento de vazio é extremamente inquietante. Vez ou outra me pego pensando em você — não somente por ser você, mas por ter sido (e ainda ser!) o maior amor que já tive na vida.
Percebo que sei amar, de acordo com as definições simplórias daqueles que pensam que podem descrever algo tão grandioso quanto o amor. Percebo, pois sinto falta não apenas do teu ser — do exato; mas da sensação de estar contigo, do turbilhões de sentimentos tão opostos que dominavam cada pedaço de mim enquanto eu estava em sua companhia; do incerto, do abstrato, do amor puro que eu sentia por você.
Lamento olhar para trás e ver que tudo isso se perdeu em um mar de não-sei-o-que. Pergunto-me o que eu faria se estivesse no teu lugar: saber que alguém tinha o maior amor do mundo, e que era meu! O que eu faria, meu Deus, tendo uma joia tão frágil e pura em minhas mãos; a representação mais genuína de um amor em carne viva, exposto e entregue à mim e dependente do meu amor… O que faria eu, meu Deus?
Certamente não o jogaria no lixo. Mas não me entenda mal, não! Sei que você não o jogou fora… Apenas penso que você talvez não estivesse pronto para ser responsável por algo tão delicado, quebradiço. Veja só: não era eu, afinal! Acho que me mostrei mais forte do que você poderia imaginar ser, e se posso usar isso como uma qualidade, então usarei! Deus sabe que ando precisando de algumas para melhorar minha auto estima…
Você, que já foi tudo e mais um pouco, agora repousa escondido nas cicatrizes que carrego (nas físicas e espirituais). Cicatrizes do seu amor. Do meu amor. Do nosso laço tão lindo e singelo que por alguma escolha do destino, virou nó. Mas veja bem, meu amor: o presente não erra. O nosso nó pode nos trazer um “nós” no futuro próximo, veja bem. Podem não ser os mesmos, o meu “nós” e o seu “nós”, mas que sejam exageradamente repletos de qualquer sentimento bom…
Uma certeza eu sempre terei, e dou-lhe de presente se te serve de algo: O futuro, meu bem, guarda surpresas além das nossas imaginações. Mas o passado… O passado faz de nós quem somos. Ele reflete nas nossas escolhas e em quem nos tornaremos. Você foi a melhor e a pior parte do meu passado; mas aí vem a melhor parte: são as escolhas que fazem a diferença. E a minha memória seletiva só escolhe felicidade.
Escolher para colher.
E eu desejo à você uma colher de tudo o que há de mais gostoso nesse mundo.
10:11— Caio Fernando Abreu
Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já…
Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida…
Saudade é sentir que existe o que não existe mais…
Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam…
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.
— Neruda
Hoje eu sonhei com você. Hoje foi a primeira vez que pensei em você inconscientemente, desde que você se foi. Acho que doeu. Acho, pois não me lembro do sonho em totalidade, mas os flashes que me aparecem me apertam o peito instantaneamente, e perco o ar. Flashes de um sorriso que há muito não vejo — achei que já havia esquecido. Mas, assim como prometemos um dia, guardei no fundo (bem no fundo!) da memória, em um lugar onde só tenho acesso quando não controlo minhas lembranças.
O pouco que me lembro são cenas rápidas, momentos que passam como um cometa, uma luz tão forte que deixa rastro em minhas pálpebras quando fecho os olhos: você, sentado, em uma biblioteca antiga, abrindo o “meu sorriso” para mim. Você, me encontrando em meio a multidão — um reencontro quase sem querer — e eu, abrindo o “seu sorriso” para você.
E agora, agora que minha cicatriz é quase um risco rosa claro, agora que eu quase já esqueci você, você volta para minha vida mais uma vez — mesmo sem querer, e me vira do avesso. Eu, quase cicatrizada, quase viro um nada quando a ausência me preenche por completo.
Você, um pontinho de quase, escondido em algum lugar que eu nem lembro, volta e me lembra que eu sou só sua, mais uma vez.
Sem pedir, você volta. Eu lhe imploro: volta?
Sua Allie.
“E entre tudo aquilo que ele poderia ser para mim, ele escolheu ser saudade.” (Caio Fernando Abreu)
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