— Caio Fernando Abreu
Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já…
Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida…
Saudade é sentir que existe o que não existe mais…
Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam…
Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.
E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.
O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.
— Neruda
Hoje eu sonhei com você. Hoje foi a primeira vez que pensei em você inconscientemente, desde que você se foi. Acho que doeu. Acho, pois não me lembro do sonho em totalidade, mas os flashes que me aparecem me apertam o peito instantaneamente, e perco o ar. Flashes de um sorriso que há muito não vejo — achei que já havia esquecido. Mas, assim como prometemos um dia, guardei no fundo (bem no fundo!) da memória, em um lugar onde só tenho acesso quando não controlo minhas lembranças.
O pouco que me lembro são cenas rápidas, momentos que passam como um cometa, uma luz tão forte que deixa rastro em minhas pálpebras quando fecho os olhos: você, sentado, em uma biblioteca antiga, abrindo o “meu sorriso” para mim. Você, me encontrando em meio a multidão — um reencontro quase sem querer — e eu, abrindo o “seu sorriso” para você.
E agora, agora que minha cicatriz é quase um risco rosa claro, agora que eu quase já esqueci você, você volta para minha vida mais uma vez — mesmo sem querer, e me vira do avesso. Eu, quase cicatrizada, quase viro um nada quando a ausência me preenche por completo.
Você, um pontinho de quase, escondido em algum lugar que eu nem lembro, volta e me lembra que eu sou só sua, mais uma vez.
Sem pedir, você volta. Eu lhe imploro: volta?
Sua Allie.
“E entre tudo aquilo que ele poderia ser para mim, ele escolheu ser saudade.” (Caio Fernando Abreu)
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